Poder-se-á perguntar porque quererá alguém guiar milhares de quilômetros para chegar ao meio de nada, porque será que a companhia de milhares de milhões de toneladas de areia e de meia dúzia de dromedários, faz quem quer que seja trocar o conforto da sua casa por uma humilde tenda, plantada debaixo de um sol abrasador, porque beberá alguém chá quente quando todos os outros querem água gelada, o que fará alguém partir se é tão mais confortável ficar…
Poder-se-ia dizer que a lua cheia, no deserto, tem uma beleza extraordinária, que o sol se levanta e se põe como em nenhuma outra parte e que a dança da areia, embalada pelo vento, no topo das dunas, compete, em charme e encanto, com os olhos verdes de uma jovem autóctone numa disputa que nos faz hesitar entre o prazer de sentir a brisa do final da tarde e mil e uma noites de sonhos e lendas de mouras encantadas.
Fazer-se-ia poesia com facilidade:
Deserto de ideias
Nestas paragens, se se quisesse.
Sonhar-se-ia, longamente, se se insistisse.
Perder-nos-íamos rapidamente...
Se avançássemos sem olhar para trás.
Mas nada, absolutamente nada,
nos poderia dar o prazer infinito de,
ainda que por breves instantes,
nos perdermos, de facto,
Deixarmos de facto,
de ter preocupações na mente,
de sentir, ainda que por um bocadinho,
um verdadeiro deserto de ideias...
Como se fossemos,
cabeças de areia e de vento,
Sem ansiedades,
Sem preocupações,
Sem compromissos ou ralações.
Por instantes somos apenas o corpo
que nos trouxe longe,
Para da nossa cabeça
longe ficarmos.
Deserto de ideias
Da nossa cabeça
Que deserta de ideias
Coisas insiste lá pôr.
Shiu não façam barulho
Quero distância desse engulho
Não vá a minha cabeça acordar
E pôr-me o corpo a trabalhar.